Em
1845, na estrada para Stupinigi, fora aberta uma nova prisão
em Turim:
a Generala. Era um reformatório de rapazes, com capacidade
para
trezentos. Dom Bosco freqüentava-a regularmente. Procurava
fazer-se
amigo daqueles pobres rapazes, condenado (quase sempre) por roubo ou
vadiagem.
Dividiam-se
em três categorias: “vigiados especiais”
que, à noite, eram trancados
em celas; “vigiados simples”, levados adiante
apenas com os meios
normais de uma prisão; “periclitantes”,
que ali se achavam só porque
alguém, já cansado deles, os confiara
à polícia. Passavam o tempo em
trabalhos agrícolas ou em oficinas internas.
Na
Quaresma
de 1855, Dom Bosco deu a todos um caprichado curso de catecismo,
seguido de três dias de Exercícios Espirituais
(nada menos), concluídos
com uma confissão deveras geral.
Dom
Bosco ficou tão impressionado pela boa vontade geral que
lhes prometeu
“alguma coisa excepcional”. Foi ao diretor e
propôs-lhe organizar para
os rapazes (abatidos pela reclusão) um belo passeio a
Stupinigi.
–
Está mesmo falando sério, reverendo? –
exclamo o homenzinho espantado.
–
Ouça. Não vamos gastar saliva à-toa.
Se quer essa licença, dirija-se ao Ministro.
Dom
Bosco foi ter com Rattazzi e lhe expôs com
tranqüilidade o seu projeto.
–
Pois não – lhe disse o Ministro. – Um
passeio fará muito bem a esses
jovens detentos. Darei as ordens necessárias para que, ao
longo do
caminho, se distribuam guarda à paisana em número
suficiente.
–
Isso não – interveio decidido Dom Bosco.
– É a única
condição que eu
ponho: que nenhum guarda nos “proteja”. E vossa
Excelência deve dar-me
sua palavra de honra. O risco é meu: se alguém
fugir, por-me-á na
cadeia a mim.
Ambos
riram. Depois Rattazzi ficou sério:
–
Dom Bosco, entenda. Sem guardas, não trará de
volta ninguém.
–
E eu, ao contrário, lhe garanto que vou trazer de vota
todos. Vamos apostar?
Rattazzi
pensou um pouco.
–
Está bem. Aceito. Confio no senhor. Mas confio
também nos guardas: em
caso de fuga, não levarão muito tempo para
recapturar esses frangotes.
Dom
Bosco voltou à Generala e anunciou o passeio. Uma
explosão de alegria. Numa brecha de silêncio, Dom
Bosco
continuou:
–
Dei minha palavra: todos se comportarão bem, e nada de
fugas. O
Ministro também deu a sua: nada de guardas, nem fardados,
nem à
paisana. Agora chegou a vez da palavra de vocês: basta que um
fuja e
minha honra se vai. Não deixarão mais
pôr os pés aqui dentro. Posso
confiar?
–
Damos a nossa palavra! Voltaremos todos! Nos portaremos bem!
Em
Stupinigi, Dom Bosco celebrou a santa Missa. Depois, houve
almoço ao ar
livre, seguido de animadas partidas à margem do rio Sangone.
Visitaram
o parque e o castelo real. Houve merenda e, ao pôr-do-sol, o
retorno. O
burro estava livre e Dom Bosco cansado. Os rapazes fizeram-no montar e,
puxando as rédeas e cantando, chegaram. O diretor
apressou-se em
contá-los. Estavam todos.
Houve
um adeus triste no portão do cárcere: Dom Bosco
se despediu de um por
um e voltou para casa com um aperto no coração:
só pudera libertá-los
por um dia.
O
Ministro, ao contrário, ao saber de tudo, ficou exultante
como de um triunfo.
–
Por que é que o senhor consegue fazer essas coisas e
nós não? – perguntou a Dom Bosco um dia.
–
Porque o Estado manda e castiga. E é só isso o
que pode fazer. Eu, ao
contrário, quero bem a esses rapazes. E como sacerdote tenho
uma força
moral que Vossa Excelência não pode entender.